DEPOIMENTO DE NATHAN MARQUES PARA EDITORA GLOBO:

Em 1974, Elis estava montando uma nova banda para acompanhá-la e o Luiz Chaves, baixista do Zimbo Trio, me indicou. Comecei acompanhando ela numa temporada de shows pela região sul e eu acabei sendo aprovado, acabei me encaixando no que Elis e o César Camargo Mariano queriam. Acabei participando do disco de 1974, um dos meus favoritos, que tem músicas e arranjos lindíssimos.

No mesmo ano, participei do show do álbum Elis & Tom. Depois fiz Falso Brilhante, Transversal do Tempo, Saudades do Brasil e Trem Azul, o último show dela que eu acabei assumindo a direção musical, pois Elis havia se separado do César. Eu só não participei do Essa Mulher, de 1979. A Elis e o César haviam formado uma banda para tocar no Festival de Montreaux e a idéia era prosseguir com essa banda, porém ela acabou se desfazendo e uma banda nova teve que ser montada às pressas e eu acabei ficando de fora, pois eu estava tocando com o Ivan Lins. Foram 8 anos trabalhando com Elis.

Musicalmente para mim, atuar do lado de Elis foi um mestrado. Todo músico da MPB gostaria de ter tocado com ela. Ela era completamente moderna e arrojada, ela incentivava a criatividade dos músicos, dava liberdade total para a gente criar. A cada show o grupo se superava no palco, nunca era igual ao ensaio. Um desafiava o outro musicalmente e Elis dava essa liberdade porque ela não tinha medo nenhum, ela segurava a barra e gostava de ver a banda "quebrando tudo" no palco. Quando dava tempo, nós ensaiávamos muito, como no caso do Falso Brilhante, que teve até aulas de expressão corporal. Elis investia, gastava tudo que tinha, pois sempre acreditava que ia dar certo.

Também tive oportunidade de conviver muito com Elis pessoa, como amiga. Ela sempre queria que eu ficasse hospedado com ela e com o César quando fazíamos temporadas em outros estados. Tinha muita amizade, eu ia na casa dela, eles vinham para a minha. A gente cozinha, fazia churrascos, cervejas, porres, risos, choros...era muito legal. Tenho até hoje fitas cassetes que ela gravava e dava para eu ouvir, coisas importantes de Quincy Jones, por exemplo, que naquela época era muito difícil de alguém ter. Ela me apresentou toda essa gente, pois quando eu fui tocar com Elis eu era um "baileiro", tocava na noite.

As vezes, cantávamos depois do show no hotel. Quando não tinha mais ninguém no bar, porque Elis era muito tímida fora do palco, ela ficava cantando com o César no piano..ela cantava blues, jazz...Outro feito dela era brigar pelos músicos. Se hoje os músicos recebem direitos conexos, têm que agradecer a Elis. Ela ajudou a fundar as primeiras associações dos músicos e sempre defendeu que os discos deveriam sair numerados da fábrica.

Tive a sorte de ter duas músicas minhas, A Dama do Apocalipse e Saia Dessa, gravadas por ela e até hoje isso me envaidece muito. Eu estava preparando o disco dela de 1982, estávamos escolhendo as músicas e eu ia fazer as bases e depois escolheríamos dois ou mais arranjadores para terminar o disco.

Na segunda-feira, dia 18 de janeiro, um dia antes dela morrer, ela estava muito ansiosa para começar o disco, ela me dizia "vamos começar isso amanhã". Eu disse que então ela conversasse com o produtor da Som Livre que ele abriria o estúdio a hora que ela quisesse. Aí marquei com ela para às 3 da tarde, do dia seguinte, para continuarmos a escolher as músicas, mas foi isso. Ela já tinha escolhido algumas músicas. Eu até lembro quais, mas prefiro não dizer, porque gera uma cobrança muito grande. Muitos compositores, depois que Elis morreu, apareceram por aí dizendo que ela iria gravar músicas deles. Muitos dos que falaram isso, era tudo mentira.

É sempre bom lembrar Elis. O buraco que ela deixou...a música caiu muito. Se ela tivesse viva, eu tenho certeza que a música brasileira não estaria tão ruim.

Nathan Marques é guitarrista