DEPOIMENTO DE MILTON NASCIMENTO PARA EDITORA GLOBO:

Eu vi Elis pela primeira vez em 1964, nem eu e nem ela éramos famosos. Foi no Rio de Janeiro, no lançamento do disco de uma cantora chamada Luiza, foi uma festa que essa cantora deu para comemorar esse lançamento. Eu já sabia quem era Elis e acabei fazendo uma brincadeira com ela, que ela detestou. Eu conhecia um rock que ela tinha gravado no primeiro disco dela, chamado Dá Sorte. Eu cantei a música e ela mandou eu calar a boca.

Só fui voltar a encontrar com ela no Festival Berimbau de Ouro, em São Paulo. Eu iria me apresentar e ela fazer o show de encerramento. Eu cruzei com ela no corredor e eu, meio tímido, abaixei a cabeça. Depois que eu passei eu ouvi um barulho de tamanco batendo no chão e ela falou "Mineiro não tem educação , não?....Quando a gente encontra um pessoa de manhã, damos bom dia, quando encontramos uma pessoa de tarde, damos boa tarde e quando encontramos uma pessoa de noite, damos boa noite". Eu disse "É que eu não queria te encher, ser mais um a fazer isso" e ela retrucou "Não tem desculpa!". E no dia que havíamos nos encontrado na casa da Luzia, eu e o Wagner Tizo havíamos tocado uma música nossa e nesse encontro do corredor ela disse que eu para eu ir na casa dela mostrar essa música para ela. E para minha surpresa, ela começou a cantar a tal música...eu olhei surpreso para ela que, pondo a mão na testa, disse "Memória, meu caro!".

Fui na casa dela e Gilberto Gil estava lá, ajudando ela a selecionar músicas. Eu cantei um monte de músicas. Foram umas vinte e tantas e quando eu parei ela perguntou se eu não tinha mais nenhuma. Eu só tinha mais uma, a Canção do Sal. Assim que eu cantei ela disse "É essa!!"

Depois fui me apresentar no programa dela, o Fino da Bossa. Ela havia gravado a Canção do Sal e queria que eu fosse ao programa cantar com ela, mas o pessoal do programa não queria deixar. Eu não era conhecido, só Elis me conhecia, mas ela arrumou uma briga, disse que se eu não cantasse ela não faria o programa, e eu acabei me apresentando. Foi a primeira e última vez que me apresentei no Fino. Mas eu sempre estava na platéia assistindo ao programa. Num certo dia, Elis terminou o programa e me disse "O que você vai fazer no Natal?". Eu respondia que ia para Três Pontas, passar com minha família. Ela disse "Não, você vai para o Rio de Janeiro, passar comigo e com minha família". Eu tentei argumentar, disse que não tinha dinheiro, mas ela decretou "Fica quieto, você vai e acabou". Isso porque a gente nem se conhecia direito.

Fui passar o Natal com a Elis e depois da ceia, da troca de presentes ela sentou-se numa cadeira e começou a chorar, dizendo que se sentia muito sozinha em São Paulo, que era muito nova e que não estava feliz. E disso eu entendia, porque eu também não estava bem em São Paulo. Vendo ela chorar eu pensei que para ela estar fazendo aquilo na minha frente, só poderia ter um motivo. Iria nascer uma grande amizade. E foi o que aconteceu.


Mais do que qualquer coisa, Elis era um mito para mim. Quando a ouvi pela primeira vez cantando minha música, a voz dela entrou dentro de mim, do meu coração, do meu sangue. Ela, inclusive, em um programa de TV, reclama que eu não falei nada sobre a gravação, mas eu nem tinha como falar. Eu até chamei ela para tomar alguma coisa num boteco, mas ela disse que não era pessoa de tomar coisa em boteco e então acabei nem falando para ela se eu tinha gostado ou não. Mas para mim, para meus amigos, para minha família foi uma festa.

Todas as mulheres da minha vida são ciumentas, menos Elis,. Porque ela tinha certeza que o lugar dela estava certo e que ninguém iria mexer. Depois que eu a conheci, todas as minhas músicas foram feitas para Elis e ela sabia disso, portanto não sentia ciúmes. Mas quando eu fazia uma música e dava para Elis gravar, eu causa um reboliço, todas as outras cantoras ficavam com ciúmes.

Todas as músicas foram feitas para Elis, mas o que aconteceu com Saudades do Avião da Panair ( Conversando no Bar) e Ponta de Areia foi muito interessante. Eu morava sozinho e dentro do meu apartamento só tinha um colchão e um piano, então era ótimo para ficar tocando violão. Em uma manhã saiu a Saudades...., pensando na Elis, e eu não acreditava que havia feito essa música. Fiquei das 10 horas da manhã até umas 3 da tarde tocando essa música, estava ficando louco. Fui para o piano, sentei e saiu, na mesma hora, Ponta de Areia. Logo avisei Elis que as duas eram dela. Fui para Nova York e o Fernando Brant ficou de colocar as letras. Gravei e mandei para ela.

Elis e Nana Caymmi são as minhas melhores intérpretes, mas Elis tem algo especial, quando ela cantava tinha algo muito além da música, tinha toda nossa amizade. Eu fui uma das poucas pessoas, ou talvez a única, que ela nunca brigou. Quando ela estava perto de mim, sempre me surpreendia. Uma vez fomos jantar e um cara que estava conosco começou a falar mal da cantora Simone, pensando que estava agradando a Elis. Quando ele terminou de falar, a Elis deu um "baita " esporro nele, dizendo que a Simone estava trabalhando e que ele estava falando um monte de bobagens, que era para ele ficar quieto...Nunca pensei que Elis fosse tomar partido de uma outra cantora do jeito que ela fez.


Um pouco antes dela morrer, eu estava morando em Belo Horizonte e a Elis não conseguia entender o que eu estava fazendo lá. Ela me ligou e disse que a partir daquele momento ela só queria trabalhar com mineiro e que estava pegando um avião para ir me buscar, que eu tinha que ficar com ela em São Paulo. E era para fazermos um disco juntos, mas infelizmente não deu tempo.

Eu continuo fazendo música para ela e fico imaginando como ela estaria cantando agora...acho que até sei, ela estaria dez vezes melhor, se é que isso é possível. Bem diferente dos outros artistas, Elis nunca foi fechada para coisas novas, então acho que tem muita gente boa que apareceu depois que ela se foi que ela adoraria gravar e iria deixar todo mundo maluco.

Elis ensinou a muitos como ouvir música , para outros como cantar e como fazer da profissão uma espécie de religião.

Milton Nascimento, cantor e compositor.