DEPOIMENTO DE JAIR RODRIGUES PARA EDITORA GLOBO:

A primeira vez que eu vi Elis foi no ano de 1964. Eu estava fazendo um grande sucesso com a música Deixa Isso Pra Lá e fui fazer a divulgação dessa música no Rio de Janeiro. A noite eu decidi passear e acabei indo ao Beco das Garrafas, um reduto da Bossa Nova. Foi a primeira vez que vi Elis se apresentando, mas ela ainda não era muito conhecida. No mesmo ano, eu fui convidado para participar do programa Almoço com as Estrelas, apresentando por Ayrton e Lolita Rodrigues, na TV Tupi. Aí quem senta do meu lado no programa? Elis Regina...Começamos a conversar e já daí nasceu uma grande amizade. Ela me pediu um autógrafo e eu pensei que era sacanagem dela, mas não era. Aí resolvi pedir um autógrafo para ela também. No meio do programa, o Ayrton Rodrigues pediu para eu e Elis nos apresentarmos juntos. Cantamos à capela as músicas Menino da Laranja e Deixa Isso Pra Lá.

Depois disso, em abril de 1965, participamos juntos no show Dois na Bossa, em São Paulo, com direção de Walter Silva. Eu nem sabia que ela participaria também. Aquela pot-pourri de sambas foi quase de improviso. Ensaiamos aquilo 40 minutos antes do show do começar e foi o ponto alto do espetáculo. Acabamos sendo contratados pela TV Record para apresentarmos o programa O Fino da Bossa, que durou 3 anos no ar, com absoluto sucesso aqui no Brasil e no exterior também. Por conta do programa, nós viajamos para Portugal e África.

Tivemos muitos momentos marcantes no programa, mas o que mais me marcou foi uma homenagem ao Dorival Caymmi, com a música Suíte de Pescadores. Foi uma espécie de uma ópera. Durou duas horas a gente cantou e representou a música do Dorival. Além de mim e Elis, estavam presentes Elza Soares, Zimbo Trio, Tamba Trio, Jorge Bem Jor, Wlison Simonal, Maria Odete e Cláudia, cada um tinha uma participação. No final, entrava o Dorival Caymmi. Foi lindo. A TV Record reprisou o programa quatro vezes.

O Fino da Bossa era um sucesso. O programa começava às 20h30, mas às 14h a fila já dobrava o quarteirão e para não deixar esse público na mão, eu e Elis fazíamos uma segunda sessão, que não ia ao ar, era um show especial para esse público. Mas resolvemos dar um tempo porque cada um tinha que dar prosseguimento em suas carreiras. Mas a separação não foi difícil, porque não éramos uma dupla, éramos os apresentadores do programa. Nossa amizade era muito sólida para haver qualquer tipo de briga. Nós nunca brigamos. Falam do temperamento difícil dela, mas era uma defesa. Muita gente se aproximava dela para tirar proveito e ela, esperta, percebia logo de cara.

Elis sempre levou a carreira muito a sério. Ela não se contentava sem ser mais uma. Ela queria ser a maior de todas. E acabou conseguindo. Enquanto outras cantoras ensaiavam quatro vezes, ela queria ensaiar vinte ou trinta. Para ela sempre poderia ser melhor. Aí quando ela se apresentava, era aquela espetáculo, todo mundo chorava , se abraçava...Tudo o que ela gravou, dificilmente outra cantora consegue cantar igual, não adianta. Não vai ser nunca a mesma coisa. Elis se tornou uma estrela.

Jair Rodrigues, cantor